NICKNAME OU A MÁSCARA DO
HERÓI
ANONYMOUS &
WIKI-LEAKS
“The Internet is by its very nature a
censorship free zone.” Julian
Assange
"Man is least himself when he
talks in his own person. Give him a mask, and he will tell you the truth."
Oscar Wilde
- Instalação artística contemporânea de autoria desconhecida (muito provavelmente Bansky), que reutiliza a frase de Andy Warhol, "No futuro, todos serão famosos por 15 minutos"
- Máscara de Guy Fawkes, popularizada pela personagem V no filme V for Vendetta - é utilizada como símbolo do movimento global Anonymous
“With the kind of radical freedom we find in digital
systems comes a disorienting moral challenge.” Jaron Lanier, in “You’re not a Gadget”
“[Anonymous é] a primeira
superconsciência com base na internet. Anonymous é um grupo, no mesmo sentido
que um bando de pássaros é um grupo. Como se sabe que eles são um grupo? Porque
estão viajando na mesma direcção. A qualquer momento, mais pássaros podem
entrar, sair, voar para uma direcção completamente diferente.” Chris
Landers. Baltimore
City Paper, 2 de Abril de 2008
ANONYMOUS, o conceito-base que descreve o carácter
desconhecido da entidade dos usuários da internet,
deu o nome à mais famosa comunidade online,
que funciona como um cérebro digital anárquico, descentralizado e
coordenado. Organiza-se geralmente em torno de um objectivo livremente
combinado entre si. “A partir de 2008, o colectivo Anonymous associou-se ao
hacktivismo colaborativo e internacional, realizando protestos e outras acções,
com o objectivo de promover a liberdade na internet, assim como a liberdade de
expressão. As acções creditadas pelo Anonymous são realizadas por indivíduos
não identificados, que atribuem o rótulo de anónimos a si próprios.”, explica o
site Wikipedia, um dos sites fortemente associados ao grupo Anonymous, que
associa também aos websites 4chan, Futaba, Encyclopedia Dramática e a outros
fóruns de discussão. Devido ao impacto das suas acções, mediatizadas e
controversas, que incluiem a divulgação de informação internacional e “ataques
de negação de serviço”, o grupo Anonymous foi considerado pela CNN como
sucessor da WikiLeaks.
“The rise of the web was a rare instance when we
learned new, positive information about human potential. Who would have guessed
(at least at first) that millions of people would put so much effort into a
project without the presence of advertising, commercial motive, threat of
punishment, charismatic figures, identity politics, exploitation of the fear of
death, or any of the other classic motivators of mankind. In vast numbers,
people did something cooperatively, solely because it was a good idea, and it
was beautiful.”
Jaron Lanier, in “You’re
Not a Gadget”
Lembre-se que a WikiLeaks * é, em princípio, uma
organização transnacional sem fins lucrativos que publica informações e
documentos confidenciais, fotografias e vídeos, de fontes anónimas e sobre
assuntos extremamente relevantes a nível internacional, lançada em 2006. O seu
principal editor e porta-voz é Julian Assange, ciberactivista. A notoriedade da
Wikileaks chega em 2010, através da publicação de documentos confidenciais do
Governo dos EUA, nomeadamente o vídeo “Collater Murder”, que mostra um ataque
aéreo em Bagdad, onde um helicóptero dos EUA mata pelo menos 12 pessoas, entre
as quais jornalistas da agência Reuteurs, presentes para reportar a ocupação do
Iraque. Outro dos documentos mais significativos publicados pela Wikileaks foi
o manual de instruções para o tratamento de prisioneiros na prisão de
Guantánamo, em Cuba.
“In the front of
Guantanamo Bay, the slogan there is: Honour Bond to Defend Freedom, in Iraq
there is a prison camp Liberty. These to me seem abuses of the word Freedom.”Julian Assange
Apesar de Assange legitimar a sua acção contra o governo dos
EUA, afirmando-se ao abrigo da 1ª emenda da constituição, o governo deste país
processou-o por espionagem.
“[Our] decisions have fashioned the principle that the constitutional
guarantees of free speech and free press do not allow a State to forbid or
proscribe advocacy of the use of force or law violation except where such
advocacy is directed to inciting or producing imminent lawless
action and is likely to incite or cause
such action.”
In 1ª Emenda, EUA
“People should not be afraid of their governments. Governments should be
afraid of their people.” No filme V for Vendetta
“Every
time we witness an injustice and do not act, we train our character to be
passive in its presence and thereby eventually lose all ability to defend
ourselves and those we love.” Julian
Assange
A 2 de Fevereiro de 2011, a
Wikileaks foi indicada para o Prémio Nobel da Paz, pelo parlamentar norueguês
Snorre Valen, que afirmou : “ é uma das
contribuições mais importantes para a liberdade de expressão e transparência no
século XXI. (...) Ao divulgar informações sobre corrupção, violações dos direitos humanos e crimes de guerra, o WikiLeaks é um candidato natural ao Prémio Nobel da Paz". Já nomeado como “O Mensageiro”, a
o mérito reconhecido a Assange por ter sido o pioneiro a trazer, em escala
exponencial, documentos e assuntos que estavam foram do discurso mediático, não
é consensual. Em causa, está a variação das concepções acerca do que significa
hoje que haja “segredos de Estado”.
PROPAGANDA OU MANIPULAÇÃO SEMÂNTICA
a partir de : Propaganda System - Anxiety Culture
"(...)When Tony Blair says: ,most people probably fill in the gap by projecting their own interpretation of "extreme" onto their map of the campaigners. "Extreme", to most people, undoubtedly means lunacy and/or destructive tendencies. We resist this simply by asking: "How, exactly, does Blair define 'extreme'?" Or, when Blair says:, most people probably fill in the gap by projecting their own understanding of what "necessary" means. Alternatively, we can resist this "hypnotism" by asking:"According to whose criteria is it necessary? By whatstandard is it necessary?" We'd then be attempting to obtain a more accurate map of the territory, rather than "lazily" falling back on our preconceived maps. (Many people naively think that by disliking or disagreeing with someone like Blair, they are immune to his propaganda. But effective propaganda already takes "disagreement" into account. Better to "deconstruct" than disagree.) It only takes a slight change in focus to shift from an essentially passive, hypnotised state (hypnotised by your own reactions to language), to an active, semantically discriminating state. No work or effort, just a little knowledge and paying attention...."
“Speech is the mirror of the soul; as a man speaks, so is he.”
PUBLILIUS SYRUS (Autor Latino de
Máximas) no capítulo “Missing Persons – Fragments are not People”, do livro
“You’re not a Gadget – a Manifesto”, Jaron Lanier
O DESPERTAR DA MENTE
“Esta globalização tem uma virtualidade particular que ela produz, e se
tem vindo a designar de uma compressão espaço-tempo.” Boaventura Sousa
Santos
Na velocidade da Era da
Informação, esta propaga-se num ápice mas também chega com delay. O
trazer à praça pública global certos factos já datados - após anos de censura ou
manipulação dos mesmos nos órgãos assumidos livres, em sociedades que se
entitulavam “democráticas” questiona recorrentemente o grau de
autoridade e ética que cabe às elites governativas, assim como a credibilidade dos media. Ao ritmo da expansão global de hoje, aos olhos da socidedade civil, nunca o presente pareceu saber tanto a fraude. O problema comum não é só a crise financeira à escala global. A descrença em
qualquer tipo de governação é disseminada nos vários tecidos sociais e países. Os media servem como veículo de comparação e policiamento entre os países. Se a sociedade democrática erguida na Era da Informação, reclamava assentar sobre pilares globais de conectividade e transparência, o seu questionamento repentino - no qual o surgimento da Wikileaks tem um papel revelador - reconhece as tantas vezes em que o aparato informacional não passará de uma camada fragmentária que se estende diante dos olhos, amputada e manipulada por interesses e dispositivos invisíveis e ulteriores, que põem em causa a transparência de um enunciado de democracia na sociedade. Esta é uma das questões profundamente nucleares do nosso tempo.
“It is impossible to correct abuses unless we know that they’re going on.”
Julian Assange - Oslo Freedom Forum, April 26-29, 2010.
A caracterização pública das elites governativas parece,
quotidianamente, não conseguir dissociar-se da repetição exaustiva de
expressões criminalizantes: fraudes, escândalos financeiros, desvio de
capitais, lavagens de dinheiro, tráficos de influências, sucessivas faltas de cumprimento
de promessas eleitorais, falta de transparência, etc – e a revelação
internacional dos sintomas, provoca recções internacionais. Como escreve Lídia
Jorge, informar um povo trata-se também de munir esse povo de pontos de
comparação possíveis.
Será a globalização da descrença? Contra décadas de importação
europeia do american dream ( o sonho
de consumo processado à escala da globalização), no contexto actual de uma
crise económica, a falta de operatividade da acção individual parece flagrante.
E se a memória colectiva de uma geração
no Ocidente foi inseminada com as imagens de um ideal de estilo de vida,
quando falha a concretização destas expectativas, porque falha também o modelo
económico em que a propaganda assenta, e nenhuma solução se adianta
imediatamente, a consciência colectiva identifica o consequente poder de
marionetização da ideologia dominante e o seu campo de influência. A amplitude
da esfera de acção individual face à amplitude da esfera da acção
institucional-corporativa reconhece-se ao espelho de uma distanciação abismal. E
se, desde 2010, as acções colectivas de protesto social proliferam nas ruas de
todo o mundo, a fraqueza na visibilidade
de resultados concretos sublinha essa mesma ineficácia civil, estrangulada pela
permanência dos sistemas disformes.

MILITARIZAÇÃO
DA VIDA CIVIL
ou O GRANDE IRMÃO ESTÁ A
VER-NOS - E AGORA?
“Se
compararmos o custo dos dispositivos de vigilância e dos cyberguerreiros, com
os dispendiosos sistemas tradicionais de armamento, estes são francamente
baratos.”
Jeremie Zimmermann in “Cypherpunks”, The Julian Assange Show,
Episódio 8 (online a 5/6/2012)
Nesta particularmente elucidativa edição do
programa de debate “The Julian Assange Show” (produzido pela RT – Russia Today
– Junho 2012) , participam três activistas ligados à “3ª geração” do movimento Cypherpunk : Andy
Müller-Maguhn, Jeremie Zimmermann e Jacob Appelbaum. Um cypherpunk é um activista virtual que utiliza
criptografia para encontrar privacidade nas suas comunicações online, como forma de se proteger da
vigilância virtual. O conceito espalha-se no final dos anos 80, e Assange foi
um dos nomes iniciáticos.
Desde cedo, através da “Cypherpunk’s
Mailing List”, se discutiu online
políticas públicas relacionadas com a criptografia, e a sustentação filosófica
e política de conceitos como anonimato, pseudónimos, reputação, privacidade,
monitorização governativa, ou controlo corporativo da informação. Na lista dos
Cypherpunks convergia-se política revolucionária e matemática avançada, fazendo
ecoar a consciência de que o conhecimento é uma arma que deve ser
compartilhada, e a internet deve
estar ao serviço dessa pulverização do poder. Uma das missões dos cypherpunks é a de trazer à sociedade civil a informação que, até então,
se encontrava exclusivamente nas mãos de poderosas elites corporativas,
administrativas, empresariais, governamentais e militares, ao mesmo tempo que
reflecte acerca deste gap entre o que
é a integridade do conhecimento sobre um determinado facto, e o que chega à
sociedade civil através dos media sobre esse mesmo facto. No centro da
filosofia cypherpunk estava a crença
de que a grande questão política na era da internet
era se o estado deveria asfixiar a liberdade individual e a privacidade através
da sua capacidade de vigilância electrónica, ou se os indivíduos tinham o dever
de sabotar ou até de destruir o estado através do posicionamento deste através
das armas electrónicas recentemente difundidas. Muitos cypherpunks foram optimistas em relação ao futuro da humanidade
– considerado que, na eminência da batalha
entre o Estado e o Indivíduo, o indivíduo acabaria por triunfar. O seu
optimismo foi baseado nos desenvolvimentos dos softwares computacionais, em particular, da invenção em meados dos
anos 70 da “public-key
crypto”.
“A
privacidade é necessária para uma sociedade aberta na era electrónica. Não
podemos esperar que os governos, empresas ou quaisquer outras organizações sem
rosto nos garantam privacidade. Temos de defender a nossa própria privacidade
se pretendemos ter alguma. Os Cypherpunks escrevem código. Sabemos que alguém
tem de desenhar software para para
defender a privacidade e nós vamos fazê-lo.”
"A Cypherpunk's Manifesto"
(Eric Hughes, 1993)
“… Assange era agora um membro comprometido do movimento por software livre, iniciado por Richard
Stallman, cujo objectivo era o de regular a comunicação entre ciberespaço
através de software e não de lei.
Como os membros do movimento o descreviam, a liberdade ali significava discurso
livre e não cerveja de borla. O movimento apelava à contribuição democrática e
colectiva.”
“As
pessoas nesta sala sonham um mundo onde as pegadas informacionais de um
indivíduo – tudo, desde uma opinião sobre o aborto até ao registo médico do
aborto efectivamente – possam ser traçadas apenas se o indivíduo envolvido
escolha revelá-las; (...) Só existe uma maneira desta visão se materializar, e
é pelo uso generalizado da criptografia. É tecnicamente possível?
Definitivamente. Os obstáculos são políticos – algumas das mais poderosas
forças governamentais dedicam-se ao controlo destas ferramentas. Sucintamente,
há uma guerra a ser travada entre os que partilham criptografia e os que a
suprimem. O grupo aparentemente inócuo sentado nesta mesa de conferência
representa hoje a vanguarda das forças pró-criptográficas. Apesar do
campo-de-batalha parecer remoto, as causas não o são: O sucesso desta luta pode
determinar o quociente de liberdade que a nossa sociedade nos poderá conceder
no século XXI. Para os Cypherpunks, a liberdade é um assunto que vale algum
risco.”
A primeira discussão nos media sobre
os cypherpunks aconteceu em 1993 na revista Wired, num artigo de Steven Levy entítulado
"Code Rebels"
A Era da Informação é também o tempo de uma
guerra pela difusão equitativa desta informação, com a primeira consciência de
que esta é o mais precioso poder. Um poder que pode ser filtrado pelos canais em
que é transmitido, através de ferramentas que restringem o acesso generalizado
aos dados e que são condicionadas pela influência e relevância das informações
em si, e pelo poder de acção da entidade que detém essa mesma informação. É essencial,
como afirma Jeremie Zimmermann, sublinhar os dispositivos de vigilância
enquanto armas. É praticamente impossível escapar à máquina de vigiar ininterrupta,
na vanguarda da tecnologia - capaz da monotorização de todas as interacções
comunicacionais, chamadas, mensagens e internet
logs, de um mapeamento por satélite, radares, sonares, de tele-vigilância
dos perímetros, etc. Um dispositivo diagramático hiperconectado, que armazena
informação ilimitadamente acerca de quaisquer movimentações pessoal de cada
indivíduo. Basta pensar que é legítima a acusação de civis utilizando
equipamento de monitorização.
“A lei especifica que perdes o direito à
privacidade quando deliberadamente cedes informação a terceiros. Acontece que
toda a gente na internet é um
terceiro. Isto serve para o teu banco ou até para o telemóvel : tu
deliberadamente marcas um número e, ao usá-lo, sabes que estás a dá-lo aos
registos da companhia telefónica. Ao usares o telefone estás, de facto, a
dizer: não tenho expectativas de privacidade. (...) As pessoas não entendem como
as redes telemóveis e virtuais funcionam, mas ainda assim os Tribunais
regulamentam deste modo estas questões. É uma loucura absoluta imaginar que
abdicamos de toda a nossa informação pessoal para estas companhias, e que estas
companhias se tornam, essencialmente,
polícias secretas privatizadas. Com o
caso o Facebook, democratizou-se a vigilância. (...) É esta a diferença entre a
abordagem à privacidade através da política, e uma privacidade através de
ferramentas legalmente camufladas. (...) O Facebook decidiu que é mais
importante colaborar com o Estado e denunciar os seus utilizadores e violar a
sua privacidade, sendo parte do sistema de controlo e sendo recompensado por
pertencer à cultura da vigilância. (...) O Google é a máquina de vigilância mais
poderosa que alguma vez foi criada.” (Jacob Appelbaum,
cypherpunk)
O que é que faz parte da biografia
essencial da vida de cada um quando, neste existe uma detalhada cartografia dos
percursos de cada uma ligação? Registos de cartão de crédito, cadastros
informatizados da escola, do ginásio, da biblioteca, da segurança social, do
médico, os registos de informação empilham-se num eixo contínuo de acesso
fácil. A internet torna-se um grande banco de dados da família humana, que cruza genealogias e conhece as ligações entre os indivíduos.
“Com Bergson,
cada imagem age sobre outras e reage
a outras, em todas as suas faces, e através de suas partes elementares: é luz
que se difunde e se propaga sem resistência e sem perda – o que ocorre nesse
universo acentrado é que tudo reage sobre tudo.” Claudio
Ulpiano
“The Blankness of Generation X Never Went Away, but
Became the New Normal. At the time
that the web was born, in the early 1990s, a popular trope was that a new
generation of teenagers, reared in the conservative Reagan years, had turned
out exceptionally bland. The members of “Generation X” were characterized as
blank and inert. The anthropologist Steve Barnett compared them to pattern
exhaustion, a phenomena in which a culture runs out of variations of
traditional designs in their pottery and becomes less creative.” Jaron Lenier
CONSPIRAÇÃO E PARANÓIA
“ In the coming years, pattern-recognition tasks like facial tracking
will become commonplace. On one level, this means we will have to rethink
public policy related to privacy, since hypothetically a network of security
cameras could automatically determine where everyone is and what faces they are
making, but there are many other extraordinary possibilities. Imagine that your
avatar in Second Life (or, better yet, in fully realized, immersive virtual
reality) was conveying the subtleties of your facial expressions at every
moment. There’s
an even deeper significance to facial tracking. For many years there was an
absolute, unchanging divide between what you could and could not represent or
recognize with a computer. You could represent a precise quantity, such as a
number, but you could not represent an approximate holistic quality, such as an
expression on a face.” “You’re not a gadget”, Jason Lanier
Num
sistema que asfixia a acção (física e virtual), interrompendo o direito
individual à privacidade, a disseminação da paranóia e das teorias da
conspiração floresce. A popularidade em torno da Reality TV foi demonstrativa de como é possível que se retire prazer da observação permanente de semelhantes (na televisão e na net, em
difusão ininterrupta) - um caso sério de voyeurismo agúdo que nasce com o formato televisivo Big Brother (em exibição desde 1997 até hoje).
US vs THEM
Numa sociedade
de controlo vincada pela distância o Eles e o Nós, a paralisia provocada pelo
medo convém à manutenção da ordem. Não há novo aqui - o culto do medo atravessa
o séc. XX : Na sociedade americana, com a tensão da guerra friam explodem os
receios de espionagem e de eminência de um ataque nuclear; expande-se a
caça a potenciais alvos comunistas e difunde-se um estado de paranóia civil,
que se replicava noutros países do mundo
occidental pelo receio da eminência de um ataque armado. A vigília civil nos regimes
ditatoriais despoletava permanentes receios das polícias secretas; O 11
de Setembro plantou o pânico do terrorismo à escala global e as oscilações do
mercado em contextos cíclicos de crise/recessão, ansiedade acerca das mudanças
sociais e das condições técnicas, e um medo motivada pela generalizável perda
de auto-controlo. Um novo modelo de subjectividade humana se ergue, e está em estado
de alerta.
"Paranoia in some contexts is the
only intelligent response" Don DeLillo in "American
Blood"
ECRÃS :
OS ROSTOS ESTÃO ENQUADRADOS. E OS PENSAMENTOS?
- Still de documentário sobre 1984 (livro de George Orwell) no canal Civilization
- Study for a portrait of John Edwards, Francis Bacon, 1985
- Study for a self-portrait, Francis Bacon, 1964
- Francis Bacon
É um interessante detalhe o facto de Assange associar à criptografia virtual do software Rubberhose variadas referências mitológicas, nomeadamente relativas à memória de civilizações já extintas – evocando o valor explicativo do mito, e o carácter de eternidade que antecipa as suas construções megalíticas e a persistência das suas mensagem encriptadas.
Se já considerámos os dados impressionantes sobre o ritmo exponencial a que cresce a tecnologia computacional, também notamos o seu carácter de persistência : um sistema de filamento de arquivos justapostos, que compõem a vasta memória da sociedade que reflectem.
Hackers, Ian Softley, 1995
O NOVO MUNDO NOVO
Uma nova realidade com leis e códigos internos, com uma estética e funções determinadas, decididas além, num lugar absolutamente alheio aos utilizadores comuns. Quem toma as decisões sobre a lógica de funcionamento deste novo mundo à semelhança do anterior?
Nuama das primeiras figurações da misteriosa ''world wide web'' pelo cinema, esta materializa-se tridemensionalmente e à semelhança de um espaço urbano. Dar a perceber esta nova acepção do conceito de ''navegação'' será ainda tentar descrever uma deslocação, um percurso ''físico''.
“His search to find a suitable name for Rubberhose takes him (…) on a journey through Greek and Roman mythology, the incestuous Cerberus and the cliched Janus; to the moral pessimism of David Hume, who argued the inescapable connection between joy and despondency; (…) to Sigmund Freud, the Medusa's Head and the castration complex; to a spoof on Zen Buddhism; to a memory of a visit to a mercenary hypnotherapist in Melbourne's Swanston Street - until, through the suggestion of a Swedish friend with an interest in ancient Sumerian mythology - "who calls himself Elk on odd days and Godflesh on even days. Don't ask why" - he finally arrives with a joyous heart at the Mesopotamian god MARUTUKKU, "Master of the Arts of Protection.".
- If MARUTUKKU was my exquisite cryptographic good, of wit, effusive joy, ravishing pleasure and flattering hope; then where was the counter point? The figure to its ground - the sharper evil, the madness, the melancholy, the most cruel lassitudes and disgusts and the severest disappointments. Was Hume right?
Julian Assange – June 1997 in "One Man's Search for a Cryptographic Mythology"
Alas, he was. Assange, "on a cold and wintry night here in Melbourne", discovers in the 4000-year-old Babylonian tablets a reference to the supposedly secret eavesdropping intelligence agency in Maryland, the National Security Agency! It is a magnificently exuberant, bravura literary performance. Assange was not merely a talented code writer and computer geek. There was in him daring, wildness and a touch of genius.”
O domínio da linguagem criptográfica em contexto virtual, como o desenvolvimento do código que sustenta e expande a internet é, para já, um bem na posse de muito poucos - mas destes poucos a maioria é "civil". A internet é também uma arma civil - governos e civis lutam com a mesma arma. Assim, o domínio da criptografia e dos algoritmos informáticos é, também, uma valorização pura do conhecimento auto-adquirido, não dependendo exclusivamente do acesso priviligiado à informação pelas elites. A sociedade de amanhã está nas mãos das capacidades deste restrito grupo de especialistas (algures em Silicon Valley...), capaz de desenhar o nosso futuro – e de lutar pelos interesses da maioria que representa. O utilizador comum utiliza tecnologia cujo funcionamento não entende plenamente. E a acção vinculada pela Wikileaks veio denunciar exactamente isso.
“It has however long been recognised that, in fact, human memory does not behave like the hard disk of your computer; it is not always accurate and reliable. Human memory can fail completely or it can be influenced by a variety of different factors, and the past can thus be altered.” (David Lowenthal, in “The Past is a Foreign Country”)
*
O
conceito Wiki é um tipo específico de
software colaborativo em hiper-texto que permite a edição colectiva dos
documentos usando um sistema que não necessita que o conteúdo tenha que ser
revisto antes da sua publicação, sendo possível ser editado por qualquer
utilizador. Apesar do prefixo, a Wikileaks não é uma Wiki de edição possível
pelos seus utilizadores.